A moda é uma poderosa ferramenta de expressão, onde indivíduos e coletivos comunicam cultura, identidade e posicionamento. Ao mesmo tempo, ela também reflete os hábitos e os valores de cada época — como exemplifica a era do fast fashion.
Em contraposição à ascensão da cultura da obsolescência, um projeto nascido no coração da floresta amazônica propõe a inversão da lógica de produção: a partir do curauá, — uma fibra resistente e biodegradável — a indústria da moda começa a se conectar com a terra.
Com aparência de um pequeno abacaxi, o curauá (Ananas erectifolius) surpreende por sua resistência: testes indicam que sua fibra é mais forte que o sisal e comparável ao vidro.

O uso, em peças automotivas e até aeroespaciais, já é discutido por pesquisadores da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Mas até então, o potencial no mercado têxtil seguia praticamente inexplorado.
É exatamente essa lacuna que a estilista Thais Arévola, fundadora da grife manauara Arévola Gallery, está decidida a preencher. Em abril de 2025, ela lançou a coleção “Alvorecer” — um marco para a moda autoral produzida no Norte. A coleção não só apresenta as primeiras roupas confeccionadas com curauá, mas também reestrutura a cadeia produtiva que começa em Novo Remanso, para chegar nas passarelas nacionais.

Esse movimento já vem sendo reconhecido por grandes nomes do mercado têxtil de Manaus, que o descrevem como uma “revolução silenciosa“. A empresa Tapajós Tecidos fez questão de celebrar a primeira coleção da Arévola Gallery nas redes sociais.
Arévola Gallery: grife amazônica
Mais que roupas, a Arévola Gallery busca traduzir cultura.
Criada em Manaus, a marca é fruto de uma trajetória pessoal, familiar e amazônida. Thais é descendente de imigrantes peruanos e cresceu entre os tecidos, cores e temperaturas da capital amazonense.

“A Arévola já carrega no nome a representatividade da minha família, que é de origem peruana e perdeu o sobrenome durante o processo de imigração. A marca surge como uma homenagem e busca representar tanto a cultura ribeirinha quanto a manauara urbana”.
— Thaís Arévola.
Essa ancestralidade se traduz no respeito à natureza, no cuidado manual, no uso de matérias-primas locais e na valorização das raízes, refletidos em designs modernos que dialogam com a vida urbana.
Com a valorização do produto final, o tecido feito de curauá pode disputar espaço com materiais sintéticos e derivados de petróleo — além do objetivo ideal ser refiná-lo até a gramatura do linho, o primeiro produzido com matriz da Amazônia.

Visualmente, as roupas combinam simplicidade natural e sofisticação. A fibra do curauá proporciona texturas únicas e orgânicas, que ganham formas confortáveis e adaptadas ao clima e estilo de vida da região. As cores transitam entre tons terrosos, neutros e inspirados na natureza, sempre com acabamento refinado.
Com planos para participar de grandes eventos nacionais e internacionais, como o São Paulo Fashion Week e o Brasil Eco Fashion Week, e o desejo de consolidar sua operação em Manaus, a Arévola Gallery representa uma nova geração de empreendedores que buscam fazer da moda uma expressão autêntica da identidade amazônica, aliando inovação, profissionalismo e responsabilidade socioambiental.
O Norte fala – e o mercado precisa escutar
Um dos pilares da Arévola é a valorização do curauá, uma fibra natural da Amazônia com alto potencial industrial e sustentável, ainda pouco explorada no mercado.
Com propriedades físicas e mecânicas diferenciadas, como alta resistência, leveza, maciez e flexibilidade, o curauá se apresenta como uma alternativa viável e sustentável aos materiais sintéticos, como a fibra de vidro, conforme apontam pesquisas da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Suas características atendem às demandas de setores que priorizam inovação, sustentabilidade e eficiência, como as indústrias automobilística, têxtil, da construção civil e farmacêutica. Além de aplicações estruturais, a fibra permite a extração da bromelina, enzima de alto valor medicinal e industrial.

Grandes empresas, como Volkswagen e General Motors, já utilizam compósitos de curauá em peças veiculares, o que comprova sua eficácia na substituição de insumos convencionais e poluentes.
Apesar do potencial, o setor enfrenta desafios estruturais, como baixa escala produtiva — atualmente, cerca de 10 toneladas por mês, frente a uma demanda que pode chegar a 100 toneladas por dia —, além da escassez de tecnologias específicas para processamento e da necessidade de integração entre comunidades, empresas e centros de pesquisa.
Estudos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) indicam que superar esses gargalos exige investimentos em inovação, desenvolvimento tecnológico e expansão sustentável do cultivo.
Para superar essas barreiras e tirar a ideia do papel, a Arévola Gallery firmou parcerias com comunidades indígenas, pesquisadores e projetos de inovação para desenvolver todo o ciclo do curauá, do cultivo ao beneficiamento, e transformou essa matéria-prima em tecidos e fios que aliam sustentabilidade e tecnologia.
Felipe Maciel, cofundador da grife, afirma que 55 artesãs indígenas integram o projeto.

“Mesmo com a desestruturação da cadeia do curauá ao longo dos anos, algumas comunidades indígenas nunca deixaram de produzir fibras naturais para uso próprio, confeccionando redes de pesca, pontas de flecha e biojoias. Esse saber ancestral foi essencial para a retomada do uso do curauá em maior escala”, disse.
Essa aposta não só fortalece a cadeia produtiva regional, como também promove um impacto social positivo nas comunidades envolvidas, além de fomentar a economia circular na região.
A jornada do curauá: cultivo, extração e passarelas
Não é mágica, é cultivo, colheita e extração. Para sair do seu formato original — o qual podemos encontrar na natureza amazônica —, o curauá passa por diversas etapas até, finalmente, chegar na galeria de Thais e, consequentemente, às passarelas.
Para que a fibra chegasse até a Arévola Gallery, foi preciso mais que uma ideia no papel. Felipe Maciel explica que foram necessárias articulações entre pesquisa, produção rural e comunidades tradicionais.

O projeto reúne diferentes saberes e frentes de atuação em torno do fortalecimento da cadeia produtiva do curauá no Amazonas, unindo pesquisa científica, produção rural e o conhecimento tradicional das comunidades indígenas
— Felipe Maciel.
O primeiro contato da grife com o curauá aconteceu por meio da doutora Simone da Silva, que coordena uma startup voltada à propagação de mudas de curauá e atua como Gerente do Núcleo de Tecnologia Vegetal do Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA).

A pesquisadora explica que o curauá se adapta “muito bem” aos solos da região amazônica e não demanda desmatamento, podendo ser cultivada em áreas já alteradas. Com isso, facilita a adoção da cultura de plantação por agricultores.
Produção de mudas
Simone destaca duas frentes na produção de mudas de curauá: as micropropagadas em laboratório e as produzidas em comunidades agrícolas.

No primeiro caso, o meio principal do projeto de Simone, a produção em laboratório garante a “maior uniformidade e qualidade genética”. Após a etapa de micropropagação, as mudas passam por aclimatização — processo de adaptação que simula condições externas — em viveiros, até que sejam levadas para os campos.
Além disso, o projeto também incentiva “a produção de mudas nas próprias comunidades, seja por meio da divisão de touceiras ou por viveiros comunitários”. Simone ressalta que esta prática “fortalece a autonomia local, reduz custos de produção e estimula o engajamento dos produtores no cuidado com o plantio”.
Colheita e extração da fibra
O processo de colheita é manual, respeitando o ciclo natural da planta. A pesquisadora indica o passo a passo:
- Retira-se a planta mãe e aproveitam-se as folhas maduras;
- Encaminham o material para o processo de desfibramento.
Essa última etapa requer muita “técnica e cuidado”, pois o manejo incorreto pode danificar as touceiras — conjunto de plantas que crescem a partir de um mesmo sistema radicular —, comprometendo que novas plantas nasçam.

Após a colheita, as folhas do curauá passam por um processo de desfibramento, onde precisam do auxílio de uma máquina desfibradora. Nesta etapa, há a retirada da parte fibrosa da folha.
Desfibramento
Simone destaca que essa é uma das etapas mais delicadas, pois pode comprometer a “resistência e uniformidade” da fibra. Após isso, o material passa por uma lavagem cuidadosa para, posteriormente, secar ao sol ou em uma estufa apropriada.

“Já a secagem precisa ser feita com cuidado, pois a exposição à umidade pode causar mofo ou alterar a cor natural da fibra”, ressalta a pesquisadora.
Por fim, há o amaciamento da fibra — etapa onde é abatida, com a finalidade de torná-la maleável e apta para o uso industrial.
A Gerente do Núcleo ainda garante que é possível aproveitar integralmente a planta.
“O resíduo gerado no processo de desfibramento (conhecido como mucilagem) pode ser aproveitado como matéria-prima para ração animal, compostagem ou mesmo como insumo para a produção de biofertilizantes“, indica Simone.
Contraponto ao fast fashion
Você já parou para pensar no custo real do fast fashion que veste o mundo? A Arévola Gallery nasceu como um contraponto necessário a esse modelo, que domina a indústria da moda com a produção rápida, volumes gigantescos e descarte acelerado.
Hoje, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), os consumidores compram cerca de 60% mais roupas do que há 15 anos, mas as peças são usadas por menos tempo. Além disso, a indústria têxtil, sozinha, é responsável por uma parcela que varia entre 2% e 8% das emissões globais de carbono.
Em São Paulo, por exemplo, mais de 90 mil toneladas de resíduos têxteis foram descartadas em aterros sanitários entre setembro de 2017 e fevereiro de 2025, de acordo com um levantamento do ESG Insights.
O Brasil ainda falha no reaproveitamento. Dados do guia Moda Sustentável, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), mostram que apenas 20% das 170 mil toneladas de roupas produzidas anualmente no país são recicladas ou reutilizadas. O restante se perde, sem cumprir nem metade de seu potencial.
Enquanto essa tendência descartável agrava a crise ambiental e social, a Arévola Gallery propõe um caminho onde sustentabilidade e respeito caminham lado a lado.
Ao valorizar fibras naturais, cultivadas de forma orgânica em parceria com grupos locais, a grife reduz a dependência de matérias-primas sintéticas e poluentes. O processo, que une o artesanal ao tecnológico, garante peças autênticas e duradouras.
Mas, afinal, a moda pode ser, ao mesmo tempo, bela, consciente e transformadora? Na Arévola, essa pergunta encontra resposta na valorização da identidade nortista e no fortalecimento das comunidades. Mais do que criar roupas, a assinatura rompe com os padrões do fast fashion e aposta em um fazer que respeita a cultura, as pessoas e o meio ambiente.