“Tudo fica mais difícil”, desabafa Andrews Nascimento, que há 12 anos trabalha sob o sol escaldante e chuvas torrenciais no transporte de frutas e verduras cultivadas nos municípios do interior do Amazonas.
Abóboras de tamanhos variados, cachos de bananas, pepinos e uma diversidade de alimentos de produtores rurais chegam diariamente à Feira da Manaus Moderna, na orla do rio Negro, na região central de Manaus.
Andrews relata que, junto com a sua equipe, chega a transportar em uma embarcação de médio porte cerca de sete toneladas de alimentos em dias mais agitados.
Os desafios do trabalho, porém, são intensificados por dois fenômenos naturais comuns na região: a cheia e a vazante dos rios da Bacia Amazônica.
Muitos acreditam que o período da cheia facilita o trabalho, mas, segundo Andrews, novos desafios surgem.
“É complicado tanto na seca, como na cheia. Tudo fica mais difícil. Quando seca, a gente divide a mercadoria para suprir a demanda”, conta.
O que esperar dos rios em 2025
Nos últimos anos, com o avanço das mudanças climáticas, esses dois fenômenos têm se tornado ainda mais intensos. Cheias históricas e vazantes extremas marcam a história dos moradores e de produtores rurais, que chegam a ficar isolados no período da seca dos rios.
O último Alerta de Cheias do Amazonas de 2025, divulgado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), trouxe a previsão de 35% de chances da cheia alcançar a cota de inundação severa (29 metros) do rio Negro na capital amazonense.
No interior do estado, porém, o movimento das águas ocorre de forma mais intensa. Até o início de junho, mais de 343 mil amazonenses já foram impactados pela cheia deste ano.

Apesar de municípios como Manacapuru (a 100km) e Itacoatiara (a 269km) sofrerem de forma mais intensa o impacto do volume das águas, a probabilidade da cheia deste ano em Manaus superar o recorde histórico de 2021, quando o rio alcançou 30,02 metros, é inferior a 1%.
No entanto, é o período de vazante que preocupa os comerciantes e agricultores.
“Secam os tanques do pessoal, o poço artesiano, e é quando a mercadoria aumenta de preço. Os que têm água dão sorte de ganhar dinheiro, né? Os que não têm, sofrem”, conta Andrews.
O custo da seca: do campo ao prato
Com a seca, tudo muda. Em 2024, o rio Negro registrou sua maior vazante, com uma cota de 12,68 metros. A marca histórica, que não acontecia desde 1902, superou em dois centímetros a vazante do ano anterior.
A superintendente do SGB em Manaus, doutora Jussara Cury, destaca um certo otimismo para que a vazante deste ano não seja tão extrema.

Durante a apresentação do último boletim de alerta, em 30 de maio deste ano, Cury realizou uma comparação com o ano de 2023 e afirmou que o rio Negro está dois metros acima do que estava neste mesmo período naquele ano.
“É pouco provável ter uma grande vazante novamente, mas tudo depende do clima”, disse Cury.
Rios que castigam
A severidade do fenômeno natural ao longo dos últimos anos escancara os efeitos da crise climática, que altera o fluxo das águas e intensifica os impactos, especialmente nas comunidades ribeirinhas e em municípios do interior do estado.
A engenheira agrônoma do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam), Anecilene Buzaglo, afirma que não há preparo suficiente dos órgãos responsáveis, para amenizar os impactos aos produtores rurais.
“Precisamos realmente criar essas políticas públicas e massificar a ponto do agricultor poder adotar isso de forma mais rápida, porque infelizmente o clima não nos consulta de que forma ele vai acontecer. Então, precisamos nos preparar melhor”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, a vazante é o período mais difícil para os agricultores, por afetar diretamente a produção e causar a perda dos alimentos cultivados.
Além disso, é nesse momento em que ocorre o encarecimento dos produtos, causado por todas as dificuldades decorrentes do processo de colheita até a venda direta aos consumidores.
“Em função do acesso ficar mais difícil às comunidades, às propriedades, o escoamento da produção, ela fica mais cara porque geralmente se tornam mais distantes do local de comercialização. Então, o maior prejuízo atual é a vazante, ou seja, a seca dos rios”, explicou Buzaglo.

O efeito nos preços dos produtos
Permissionária da Feira da Manaus Moderna há 10 anos, Adriana Lima relembra os desafios enfrentados na última vazante histórica.
“Não foi muito legal porque faltou muita coisa, ficou difícil de chegar até aqui. Não tinham os produtos que os clientes pediam, que a gente faz entrega para os clientes”, disse.
A trabalhadora explica que, mesmo com as tentativas de suprir as demandas dos clientes, muitos alimentos tiveram aumento de preço e alguns sequer chegaram às bancas da feira.
“Então devido a essa seca que deu, feia mesmo, nós não tínhamos tudo o que os clientes pediam para a gente fazer para eles, as entregas”, afirmou.

Na cheia, a realidade não é diferente
Se a seca paralisa o transporte, a cheia traz outro desafio: a inundação das lavouras. Essa é a realidade enfrentada todos os anos por produtores rurais, empresários e comerciantes no Amazonas. Viver no interior do estado é aprender a adaptar a rotina conforme o ritmo dos rios.
No município de Manacapuru, a cheia do rio Solimões em 2025 já impacta o dia a dia do comércio e, consequentemente, o preço de frutas, legumes, verduras e pescados.
A escassez dos produtos, provocada pela redução na oferta, é o principal fator para o aumento dos preços. A feirante Ilza Dias relata como tem lidado com os reajustes.
“A abobrinha, que é o jerimum, aumentou muito de preço pra gente. Agora estamos até comprando por unidade. Não dá mais pra fazer um abastecimento grande, por causa do valor que subiu”, conta.

Impacto inevitável no bolso do consumidor
Produtos essenciais como tomate, cheiro-verde, banana pacova, macaxeira e cará já tiveram aumento de até 60%. O peixe, alimento tradicional na mesa do amazonense, está cada vez mais raro — e caro. E quem sente o impacto direto são os consumidores.
A aposentada Nazaré Pereira compartilha sua experiência nas feiras: “Primeiro, fui na feira do peixe e achei o jaraqui muito caro: seis por R$ 30. Em outra banca, matrinxã e jaraqui juntos, seis por R$ 50. Na feira de verduras, o jerimum, a batata e o cará também estão caros”.
O aumento é resultado das dificuldades tanto para pescar quanto para transportar os produtos. Apesar da abundância de água, o período de cheia afeta negativamente o setor pesqueiro na região.
O peixeiro Francisco Lima explica os desafios enfrentados: “A dificuldade é que, quando a gente vai na beira, compra por um preço. No outro dia, já não tem mais, e o que tiver, a gente acaba pagando mais caro. Como o rio está cheio, fica mais difícil pros pescadores pobres conseguirem pescar. Aí, pra gente também complica, né? Mesmo assim, a gente compra porque precisa trabalhar”.
Fomento, alimentação e logística local: a visão do produtor
Pelo lado do produtor rural, o cenário é desafiador. Mesmo com a preparação, os impactos são inevitáveis.
Para o produtor e empresário Egídio Cassol, membro da diretoria da Cooperativa CAPRUC, no Careiro Castanho, os prejuízos chegam de qualquer forma. Ele trabalha com criação de animais, que sofrem com a falta de alimento nesses períodos críticos.
Ele destaca que tanto na cheia quanto na seca, o maior desafio é garantir a alimentação dos animais.
“A gente consegue amenizar os impactos se preparar a alimentação com antecedência. A silagem de capim e milho, por exemplo, salvou a produção de gado na última seca. Sem comida, não tem como produzir”, afirma.
Segundo Cassol, o investimento em infraestrutura de produção e a agilidade nas licenças ambientais são cruciais para garantir a sobrevivência do setor agropecuário.
“Falta fomento, agilidade e mais dinheiro para o produtor. Se a gente tivesse apoio para manter tanques com água e silagem pronta, não sofreria tanto com a seca e a cheia”, declara.
Cheia x seca: dois lados da mesma moeda
Para o economista Mourão Júnior, as variações no regime dos rios representam um momento delicado para a economia, pois dependem diretamente de fatores climáticos.
“De um lado, quando há seca, há um aumento do frete e um aumento do custo em geral. E quando há a cheia, aí o prejuízo se torna também, ou melhor dizendo, o custo se torna pelos impactos causados principalmente no interior do estado. Então, essa questão, a economia, como perdas de safra e demais impactos que vão aumentar o custo nosso aqui da região Norte”, explica.

Para os pesquisadores, os extremos climáticos estão cada vez mais frequentes, como explica Renato Senna, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
“Já estamos no terceiro ano praticamente consecutivo com chuvas muito abaixo do esperado para esta época do ano na região, principalmente no estado do Amazonas”, diz.
Renato também destaca que a falta de água impacta diretamente a produção de alimentos, pescados, transporte e até o abastecimento de combustíveis.
“Muito provavelmente, esses produtos do extrativismo, como a castanha, o açaí, o nosso x-caboquinho, o tucumã, foram afetados pela seca. A produtividade desses principais produtos foi comprometida”, afirma.

Planejamento e hidrovias estruturadas: a resposta do comércio
O presidente da Federação do Comércio do Estado do Amazonas (Fecomércio-AM), Aderson Frota, defende ações coordenadas entre governo e setor produtivo. Ele alerta que o aumento do custo logístico, como o salto de 300% no frete em 2023, impacta diretamente a população de baixa renda.
“Quando o frete sobe, o preço dos alimentos dispara. Por isso, orientamos os empresários a planejarem as compras com antecedência, evitando a descapitalização”, explica Frota.

Além do planejamento, Frota cobra medidas estruturais do governo federal, como a criação de hidrovias balizadas e sinalizadas, principalmente em rios de leito móvel como o Madeira.
“Não basta ter rio, é preciso ter hidrovia com dragagem e sinalização. Sem isso, a carga encalha, o seguro não cobre, e o prejuízo recai sobre o consumidor”, diz.
Urgência por soluções climáticas globais
O Amazonas sofre os impactos climáticos no abastecimento de alimentos: enquanto secas recordes causaram R$ 620 milhões em prejuízos em 2024, cheias extremas continuam paralisando comunidades.

A realização da COP30 no Brasil, em 2025, coloca o país no centro das discussões climáticas globais em um momento em que os impactos das mudanças no clima são sentidos com força na região amazônica.
A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas terá como foco a redução das emissões de gases de efeito estufa, o financiamento de ações em países em desenvolvimento, a promoção de energias renováveis e tecnologias de baixo carbono, além da adaptação aos impactos já em curso. Para o Amazonas, essas metas não são apenas compromissos políticos — são urgências práticas.
Durante a COP30, soluções concretas para a Amazônia podem ser discutidas, como o fortalecimento de políticas de preservação florestal, o incentivo a cadeias produtivas sustentáveis, o investimento em infraestrutura resiliente e o apoio internacional para comunidades vulneráveis.

Possíveis medidas para amenizar as sequelas
Presidentes de entidades, pesquisadores e técnicos apontam caminhos para reduzir os prejuízos causados pela seca e pela cheia no estado.
Renato Senna, pesquisador do Inpa, destaca a urgência de políticas públicas voltadas para comunidades ribeirinhas:
“É urgente garantir água potável, alimento e energia às populações isoladas. Tecnologias de baixo custo – como captação de água da chuva – podem evitar o êxodo rural. Se essas comunidades abandonarem as áreas, aceleraremos crimes ambientais e chegaremos a um ponto de não retorno da floresta. Manter essas famílias é proteger a Amazônia”.
O economista Mourão Júnior defende, na área econômica, redução tributária e portos fluviais:
“O Estado deve isentar impostos durante crises climáticas. Como 70% dos alimentos vêm de fora, precisamos de portos fluviais estratégicos para transbordo eficiente em períodos de seca. Sem estradas ou hidrovias, o Amazonas seguirá refém dos rios – e os custos recairão sobre o consumidor, especialmente os mais pobres”.
A engenheira agrônoma Anecilene Buzaglo, do IDAM, reforça que a solução agrícola passa por culturas adaptativas e manejo adequado:
“Priorizamos espécies tolerantes: mandioca e milho de ciclo curto para várzeas, além de plantas resistentes ao déficit hídrico em períodos de seca. Coberturas de solo reduzem a perda de umidade, e evitar solos pesados minimiza os danos nas cheias. Políticas públicas precisam massificar essas tecnologias acessíveis aos produtores”.
*Com colaboração de Bárbara Fernandes, Letícia Rolim e Francisca Brito










