Um “deserto” em meio à Floresta Amazônica, causado pela presença descontrolada de búfalos, chama atenção pelo forte contraste com o verde predominante de Rondônia.
O fenômeno ocorre na Reserva Biológica (Rebio) Guaporé, em Rondônia, onde mais de 70 anos de ocupação do animal selvagem causaram a destruição do solo e a redução de áreas alagadas.
Atualmente, cerca de 5 mil animais vivem na área, mas projeções indicam que essa população pode atingir 50 mil indivíduos até 2030.
Em 31 de janeiro, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública pedindo que o governo federal e o governo de Rondônia elaborem um plano urgente de erradicação dos búfalos, devido aos riscos ambientais, sanitários e econômicos.
Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), os animais ocupam 12% da reserva e estão devastando a vegetação nativa, compactando o solo e reduzindo drasticamente os cursos hídricos.
Erosão e ameaça à fauna local
Lidiane Silva, chefe do Núcleo de Gestão Integrada Cautário-Guaporé do ICMBio, explicou ao UOL que a presença dos búfalos altera profundamente o ecossistema da região.
- Danos ao solo: Os animais cavam trilhas que criam valas de até 1,5 metro de profundidade, dando origem a um ciclo de erosão progressiva.
- Redução das áreas alagadas: Um estudo apontou que a superfície coberta por água na reserva diminuiu 48% nos últimos 34 anos.
- Desertificação: Sem água, a vegetação seca e morre, transformando parte da reserva, localizada em Rondônia, em uma paisagem de solo exposto e rachado, um “deserto” causado pela presença dos búfalos.
- Impacto em espécies ameaçadas: O cervo-do-pantanal, já ameaçado de extinção, perde espaço para os animais ferais e sofre com a redução de alimento e abrigo.

Erradicação dos búfalos: um processo de até 15 anos
Apesar da gravidade da situação, a solução é complexa. Devido às dificuldades de acesso à região e à falta de controle sanitário dos animais, a erradicação é considerada a única alternativa viável.
No entanto, Lidiane Silva ressaltou que ainda não há um consenso sobre o método a ser utilizado, mas estima-se que o processo leve de 10 a 15 anos.
Uma das preocupações é o destino das carcaças dos búfalos abatidos, uma vez que esses animais, por serem ferais, não podem ser aproveitados para consumo humano.
Como os búfalos chegaram à região?
A história dos búfalos na Rebio Guaporé começou em 1953, quando introduziram os animais na Fazenda Pau D’Óleo, à época pertencente ao Território Federal do Guaporé.
Com o abandono da fazenda, 36 búfalos passaram a viver livres na área, encontrando alimento em abundância e nenhum predador natural. Desde então, a população cresceu descontroladamente e ocupou a reserva biológica.
Pedidos do MPF
Na ação civil pública, o MPF destaca que a situação é conhecida desde 2008 e que várias tentativas de controle fracassaram. Agora, o órgão pede que a Justiça Federal determine:
- Prazo de 10 meses para que o ICMBio apresente um plano de erradicação dos búfalos.
- Execução do plano pelo governo de Rondônia, com fornecimento de recursos financeiros e humanos.
- Criação de um plano de recuperação das áreas degradadas.
Por fim, o governo de Rondônia informou que está avaliando os impactos ambientais e sanitários da erradicação dos búfalos, mas alertou que a solução depende de uma legislação conjunta entre estado e União.
Enquanto isso, a paisagem da reserva segue mudando, ameaçando um dos ecossistemas mais importantes da região Norte.
Com informações do UOL