Profissionais da saúde indígena, que atuam nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Yanomami, decidiram, em assembleia-geral extraordinária realizada nesta quarta-feira (12), entrar em greve a partir de sábado (15) em Roraima.
A paralisação, que será por tempo indeterminado, ocorre em resposta à falta de ações concretas por parte das autoridades para atender às reivindicações da categoria.
A unidade DSEI Leste não entrará em greve, e o funcionamento da unidade acontecerá normalmente.
O que os trabalhadores reivindicam?
Os profissionais da saúde indígena reivindicam com a greve:
- Fornecimento adequado de medicamentos e melhorias nas condições de alojamento;
- Materiais de manutenção e medidas para garantir a segurança dos profissionais;
- Pagamento do adicional de insalubridade em grau máximo para quem atua no território;
- Pagamento mensal fixo pelos pernoites;
- Cumprimento do piso salarial dos Agentes de Combate às Endemias (ACE) e adicional de insalubridade de 40% sobre o piso;
- Reajuste salarial de 8% para todas as categorias;
- Disponibilização de voos para remoção de pacientes e troca de equipes;
- Implementação de comunicação (internet) nos polos-base e subpolos;
- Fornecimento de água potável e gás de cozinha;
- Disponibilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs);
- Transporte entre a Casa de Saúde Indígena (CASAI) e os locais de atuação;
- Condições adequadas de descanso para profissionais na CASAI; e
- Transporte para retorno dos trabalhadores a suas residências após 30 dias de atuação em território indígena.
Como está a situação da saúde do povo Yanomami atualmente?
Em entrevista exclusiva ao Portal Norte, a presidente do sindicato dos trabalhadores da saúde, Joana Gouveia Mendes, revelou os desafios enfrentados pelas equipes de saúde que atendem os Yanomami.
“Antibióticos, medicamentos para síndromes gripais e até remédios para dor e febre estão em falta. O que é enviado para o território muitas vezes não é suficiente para suprir a demanda”, destacou.
Além disso, a líder do sindicato criticou a plataforma AgSUS e a centralização dos atendimentos em Brasília.
Como a greve afetará a população?
Segundo a presidente Joana Gouveia, a paralisação pode afetar mais de mil trabalhadores, comprometendo o atendimento à população indígena.
Joana também destacou as dificuldades estruturais enfrentadas pelos profissionais, como a precariedade na comunicação em alguns polos-base, a contaminação da água e a escassez de transporte aéreo para remoções de emergência, especialmente de gestantes.
“Já existe uma lei que obriga o pagamento de dois salários mínimos para os agentes de combate à endemia, mas isso não é cumprido. Muitos entram no território com medo, mas são obrigados a trabalhar porque dependem do emprego para sustentar suas famílias. Em muitos polos, a estrutura dos alojamentos está em condições inaceitáveis. O sindicato está buscando construções e reformas desses alojamentos. Isso afeta diretamente o bem-estar das equipes, pois não têm um local adequado para descansar, e muito menos para fazer suas necessidades fisiológicas. Infelizmente, muitos colegas precisam ir à mata para isso, correndo o risco de ser picados por cobras, animais venenosos ou até de serem atacados por onças”, afirmou.
Paralisação nos atendimentos
Ademais, com a aprovação da greve, os atendimentos de rotina serão interrompidos.
“Não serão realizadas visitas, nem enviados documentos. Apenas os atendimentos de urgência e emergência continuarão funcionando”, declarou Joana.
Por fim, a questão da segurança no território Yanomami tem sido um problema recorrente. Mendes relatou que as equipes enfrentam ameaças frequentes, o que tem prejudicado o bem-estar psicológico dos profissionais.
“Recentemente, fecharam mais um subpolo porque a equipe foi ameaçada de morte. As ameaças de ‘matar a saúde igual ao parente do Maraxiú matou’ são uma constante”, afirmou, referindo-se ao caso do assassinato de um técnico de saúde em 2024.